terça-feira, 21 de março de 2023

Carta sobre as eleições

 Vinte e um de março de dois mil e vinte e dois.


Oi filho, 

Soubemos que você existia no dia oito de maio de dois mil e vinte. Das várias sensações que tivemos, muito medo e incertezas por não saber nada sobre paternidade e maternidade e principalmente por causa da pandemia, lembro de conversarmos sobre a vez de você vir ao mundo ser justamente quanto sobrevivemos ao pior presidente do Brasil.

O presidente que ficou entre 2019 e 2022, nem ouso falar o nome dele, foi responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas na pandemia, além de muitos absurdos relacionados a misoginia, racismo, milicias e contra a ciência. Vivemos um período péssimo e muito triste politicamente, apesar da alegria em ter você conosco. 

Estou te escrevendo para dizer que nas eleições de 2022 conseguimos nos livrar deste canalha. Elegemos novamente o presidente Lula, por um percentual pequeno de diferença (menos de 2%). O atual presidente e seu partido tem uma série de problemas, nós fazemos críticas, mas para se livrar de um fascista é necessário deixar algumas questões de lado. Acreditamos que agora, quase dois anos depois de você nascer, a perspectiva de futuro é melhor. 

Nós entendemos que a postura política de esquerda que se preocupa com as questões sociais é a melhor forma de governar um país com muita desigualdade social como o Brasil.

Geralmente a gente vai votar no domingo pela manhã. Passamos na escola da mamãe, depois na escola em que o papai trabalha e depois na escola em que o papai vota. Nós fizemos questão de usar símbolos do MST como boné e camiseta. Nossa cidade é muito conservadora e dá um certo receio em se mostrar de esquerda. Mesmo assim nós fomos, você nos ajudou na urna apertando o "vedi". 

Confesso que ficamos com medo durante o primeiro turno, pois nas apurações as primeiras urnas davam vantagem para o fascista e o Lula só virou depois da metade das urnas apuradas. No segundo turno aconteceu algo parecido, mas o resultado foi mais rápido. Antes das nove da noite já sabíamos que nos livramos do fascismo. 

Esta noite de domingo foi bem legal. Ouvimos a apuração no rádio enquanto lavávamos o carro e depois fomos na casa da vovó Cida jantar, rir e comemorar. Ah, um dia antes nós havíamos ganho a nossa terceira Libertadores da América. Pensa num final de semana bom!

Vou deixar uma foto que batemos antes de ir votar.

Te amo,

Pai.





sexta-feira, 17 de março de 2023

Carta sobre a Obra Prima

Dezessete de março de dois mil e vinte e três


Oi filho,


Outro dia, já faz um tempinho, eu vi um vídeo que diz que filhos são obras-primas. Pra mim isso fez todo o sentido. Uma obra-prima é aquilo que a pessoa fez de melhor e, se pensarmos, nada do que fizermos em nossas vidas será mais importante e mais perfeito do que você. Nada no trabalho, nos estudos, em nossas atividades individuais chega nem perto do quanto você é essencial em nossas vidas. 

Por isso, todos os dias a mamãe e eu lutamos para continuar fazendo nossa obra-prima crescer bem. 

Te amamos.

Pai e mãe. 

segunda-feira, 13 de março de 2023

Carta sobre o eu te amo

Vinte e sete de novembro de dois mil e vinte e dois 


Neste dia, vinte e sete de novembro de dois mil e vinte e dois, após o banho, quando você já tinha aprendido a me dar um beijinho e desejar "boti" que é o seu boa noite, você repetiu quando eu disse eu te amo, falando "tchamo". 

No dia seguinte você disse por si mesmo, o "tchamo" e como eu estou escrevendo este texto com quatro meses de atraso, agora todas as noites após banho você fala "tchamo papai". Está certo que em algumas noites eu tenho que repetir muitas vezes até ganhar um "tchamo papai" teu, mas em todas elas eu fico todo bobo. 

Parece que nos últimos meses nossa relação tem se estreitado. É normal que o bebê se queira muito mais a mãe no início, mas finalmente chegou a minha vez. Estou muito feliz com essa nova fase e, nunca custa repetir: eu te amo muito. 

Pai. 


Carta sobre o título

 Treze de março de dois mil e vinte e três.


Oi filho,

Há duas semanas atrás eu apresentei a minha tese de doutorado. Agora eu sou "doutor". Nem gosto dessa palavra, desse título. Meus objetivos ao fazer esse curso eram primeiro chegar o mais longe possível na minha carreira de professor, já que o mundo e a vida e a nossa família conspiraram para que eu tivesse a chance de estudar mesmo depois de adulto, casado e pai. Com isso tenho a chance de trabalhar no ensino superior, mas por enquanto eu não quero. Estou satisfeito com as escolas. Ah, também vou melhorar um pouco o salário nas redes públicas. Então o esforço valeu a pena.

Mas, a melhor parte, sem dúvidas, é poder chegar em casa a noite e saber que poderei brincar contigo, sair em família para assistir algum jogo, lanchar ou fazer alguma outra coisa sem se preocupar em estudar, escrever e produzir. Ou seja, no fim do dia chega a melhor parte do dia, a hora de ficar em família. 

A apresentação foi dia 27 de fevereiro, uma segunda-feira pela manhã. Da nossa família estavam a mamãe, a vovó Cida e o vovô Cézar. Também alguns amigos. Pra uma segunda-feira de manhã achei que foi bastante gente. Eu estava nervoso desde o sábado a noite, durante o final de semana ensaiei algumas vezes e na manhã da apresentação acordei cedo e repassei mais uma vez. Levamos você para a escolinha, pois você não aguentaria ficar quatro horas parado em um auditório. No caminho ouvi algumas músicas pra me inspirar e passamos na frente da casa da bisa Cici, nessa hora me emocionei um pouco.

 Incrivelmente, durante a apresentação eu não fiquei nervoso. Gaguejei algumas vezes, mas no geral foi bem bom. Também não tive críticas duras ao trabalho o que me deixou bem feliz. Pra marcar a sua presença coloquei uma foto sua no último slide, nessa hora, minha voz embargou um pouco, pois é tudo por você e pela nossa família. 

Foi um dia importante, por isso resolvi te contar aqui.

Eu te amo,

Pai. 














Esse texto não é meu

Sete de dezembro de dois mil e vinte e dois. 

Esse texto não é meu, li em alguma rede social de uma amiga, mas gostei muito, então resolvi deixar registrado aqui pra ti:

"Li esses dias que piá, que a gente usa no sul para se referir aos meninos, vem do guarani "pyã" e significa coração. Usado habitualmente pelas mães para falarem de seus filhos. Algumas fontes, como o Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena, dizem que guri, famoso no sul também, do tupi-guarani "guirii", significa terno, brando. E da Angola, do quimbundo, herdamos o mu'leke, aqui moleque, que significa filho pequeno. Piás, guris ou moleques, os nossos 'rebentos' - que vem da morfologia botânica e significa broto, o primeiro estágio da planta - são certamente nossos corações ternos e brandos."

Eu gosto de te chamar de neneco. Às vezes eu perguntamos: - O Bruno é neneco de quem? E tu responde quase sempre: - neneco do papai. Depois perguntamos: o Bruno é príncipe de quem? E tu responde: - "pispe" da mamãe.

Neneco, príncipe, periquito (às vezes eu te chamo também), piá, guri, muleque... você é nosso coração, nosso broto, nosso amor. Nunca se esqueça disso.

Te amamos.

Pai e mãe.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Carta sobre o aniversário II

 Cinco de janeiro de dois mil e vinte e dois.


Dois anos.

730 dias.

Pouco que parece muito ou muito que parece pouco? As duas coisas, eu acho.

Pra quem amamenta todas as noites (e dias), como é o caso da mamãe, são 730 noites (e dias). Pra quem toma banho juntos todos os dias, como é com você e papai, são mais de 700 banhos. Ao mesmo tempo, o papai esperou 31 anos por uma Libertadores e você menos de dois.

Em pouco mais de 700 dias você aprendeu a comer, sentar, se levantar, andar, correr, falar, brincar, ir para a escola, torcer e até a ajudar. É muita coisa pra tão pouco tempo!

Por ser uma data especial a gente para pra pensar e parece até que foi ontem, mas há dois anos a gente não conseguia nem imaginar que chegaria assim, num piscar de olhos (quem tem filhos vai entender). É engraçado porque são só dois anos e quase não conseguimos lembrar da vida antes de você.

Se é muito ou pouco, não importa. Ao fim e ao cabo 'o importante é nós aqui, juntos ano que vem'.

Obrigado por tudo, filho.

Nos te amamos.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Carta sobre o ano novo II

 Trinta e um de dezembro de dois mil e vinte  e dois.

Oi filho,

Há dois anos atrás esperávamos por você, em meio a pandemia e com muitas dúvidas e receios. 

No ano passado festejávamos aqui na casa da praia o fato de lhe estar contigo há quase um ano e, apesar de não ter sido fácil e de termos errado muito, sobretudo eu, chegamos com saúde e fazendo o que era possível para seu bem-estar.

Neste ano tivemos duas grandes novidades: você começou na escolinha, que você adora, tanto a escola, quanto a diretora, as professoras e sabe o nome de todos e todas as coleguinhas.

A segunda novidade foi o trabalho de sua mãe na área da veterinária. Ela trabalhou o ano todo na clínica, passou perrengues, mas aprendeu muito e deu conta.

O papai seguiu lecionando e estudando. Daqui há alguns dias eu entrego a tese e posso dar meu ano como acabado.

A esta altura você já deve saber que eu não dou muita atenção pra essa coisa de ano novo, que é uma invenção e que as coisas não mudam de um dia para o outro, mas com muita dedicação e trabalho.

O próximo ano será de dedicação e trabalho. Vou estudar menos e trabalhar mais e pretendemos abrir a clínica da mamãe. Se tudo der certo será legal um dia voltar a este texto e relembrar estes planos.

Quanto a você é até difícil falar. Você mudou tanto! A fala está em pleno desenvolvimento, a parte motora também e está a cada dia mais inteligente, bonito e nos impressionando com as suas habilidades novas. 

A verdade é que eu só tenho a agradecer e parafrasear os racionais: o importante é nós aqui, junto ano que vem. 

Te amo.

Pai